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Virus Oropouche avança no Brasil e ameaça desenvolvimento cerebral

Estudo utiliza minicérebros para entender como o patógeno, antes restrito à Amazônia, afeta células em gestação.

Conhecido desde 1955, o vírus Oropouche passou décadas circulando de forma discreta na região amazônica. Por provocar sintomas semelhantes aos da dengue, da Zika e da chikungunya, o patógeno permaneceu subdiagnosticado por muito tempo. A transmissão era associada principalmente ao inseto conhecido como maruim, mas análises recentes indicam que a vigilância limitada ajudava a mascarar a real extensão do problema pelo país.

A expansão nacional e os riscos para gestantes

O cenário mudou drasticamente a partir de 2024, quando o Brasil contabilizou a maior disseminação da história do vírus. Dados do Ministério da Saúde apontam quase 14 mil casos confirmados naquele ano, patamar que se manteve elevado em 2025, alcançando pela primeira vez as cinco regiões brasileiras de maneira sustentada.

O aumento das ocorrências veio acompanhado de situações graves, como registros de óbitos, transmissão vertical, abortamentos, perdas fetais e bebês nascidos com microcefalia e outras malformações congênitas decorrentes da infecção durante a gravidez.

O uso de minicérebros na investigação científica

Para compreender os impactos do patógeno no sistema nervoso em formação, cientistas recorrem a organoides cerebrais, estruturas tridimensionais formadas a partir de células-tronco humanas que simulam as primeiras etapas do desenvolvimento neurológico. Essa mesma tecnologia foi empregada em 2016 para elucidar os danos causados pelo vírus Zika na malformação encefálica.

Na nova pesquisa, células-tronco neurais foram expostas a duas linhagens virais: a cepa histórica BeAn19991, isolada na Amazônia em 1960, e uma variante coletada durante o surto recente no Rio de Janeiro em 2024, que apresenta rearranjo genético.

Impacto direto nas células formadoras

Os testes demonstraram que ambas as linhagens possuem alta capacidade de infectar as células-tronco neurais. A cepa antiga infectou cerca de 87% das unidades expostas, enquanto a versão recente registrou índices ligeiramente inferiores, mas mantendo a replicação ativa.

A análise molecular revelou uma assinatura comum de 657 genes alterados. Houve queda na atividade dos genes de proliferação celular e aumento naqueles ligados à inflamação, replicação do vírus e morte celular programada.

Danos estruturais nos tecidos

Nos organoides com cerca de 30 dias de desenvolvimento, a infecção provocou redução no crescimento, bordas irregulares e perda de organização estrutural. O patógeno atingiu principalmente as zonas ventriculares, diminuindo a presença da proteína Ki67 e da PAX6, estruturas fundamentais que funcionam como um suporte biológico para a criação de novos neurônios.

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